Memórias,uma história aos pedacinhos, reflexões…

O novo colégio

Meus pais viram-se confrontados com a necessidade de encontrar uma outra escola para mim, na qual eu pudesse fazer a minha aprendizagem e que, ao mesmo tempo, desse continuidade às minhas raízes religiosas.

O melhor colégio das redondezas era o colégio Nuestra Senhora de La Merced, situado numa zona residencial de luxo, era dirigido por freiras espanholas. Era também o mais caro ,todavia, esta foi a escolha deles.

Erguia-se no alto de uma colina e tinha uma arquitectura moderna com colunas de mármore e chão de granito preto, muito brilhante, uma pequena capela onde todas as tardes rezávamos o terço e onde, nos dias especiais, se celebrava missa e uma vez por semana um padre mercedário ouvia alunas e freiras em confissão

Esta foi a minha segunda escola da qual tenho as melhores recordações, onde fiz muitas amigas e as freiras eram doces e amigas, contrariamente àquilo que se diz ao falar de colégios de freiras!

Era um colégio exclusivamente de meninas de um estrato social elevado, estudavam ali filhas de ministros, de grandes empresários e de gente endinheirada, mas acolhiam também meninas órfãs e as filhas das funcionárias da escola. Eu não encaixava em nenhum desses grupos.

Lembro com saudade a Irmã Consuelo e a Madre Trinidad, que nos davam as aulas de religião e lavores durante as quais aproveitávamos para conversar sobre assuntos que nos intrigavam e a que elas respondiam sempre com doçura.

Nesse tempo eu jurava que havia de ser freira, quase chorava de emoção ao pensar na santidade que eu ia ter devido às minhas obras. Ainda mais me convenci quando um frade missionário que passou pela escola nos contou as suas aventuras nas missões e, sobretudo, depois de ter comido as formigas fritas que ele nos deu a provar!

Mas era verdade que a ideia de despojar-me de tudo me dava grande satisfação.

A Irmã Consuelo era uma jovem gorducha que tomara os hábitos ainda há pouco tempo. Ela mostrava sempre um sorriso feliz e era muito condescendente e amável. Numa ocasião algumas de nos conseguimos persuadi-la a mostrar fotos anteriores à sua entrada no convento, o que ela fez, e pudemos sentir a sua emoção e saudade da família. Descobrimos então uma bonita jovem de longa cabeleira, sorridente em companhia dos pais e irmãos, que tinham ficado longe, nas Astúrias.

Este facto valeu-lhe uma reprimenda por parte da Superiora pois as freiras não tinham permissão para falar da sua vida particular. Mas nós ficamos a gostar ainda mais dela.

A Madre Dolores era mais arisca. Tinha sempre a pele irritada e avermelhada, era ainda jovem mas exasperava-se facilmente. Era também a professora de matemática. Nós atribuíamos o seu mau humor à falta de vocação, suspeitávamos que tinha sofrido um desgosto de amor e, por essa razão, se tinha convertido em freira. Nesse tempo as freiras vestiam o hábito até aos pés e a touca cobria-lhes o pescoço, apenas o rosto ficava descoberto, o que devia ser um suplício, considerando o clima quente e húmido daquelas paragens, talvez por isso a intimidade das freiras espicaçava a nossa curiosidade, queríamos saber se elas tomavam banho nuas ou se eram carecas, conforme os boatos que corriam…

Chegamos a formar, entre as internas, grupos destinados a espiar as monjas e tentar descobrir o mais possível da vida íntima das mesmas, mas não descobrimos nada relevante e todos os boatos ficaram por confirmar, até hoje!

As meninas que já tinham completado os 12 anos foram convidadas a permanecer na escola depois de finalizar as aulas, para ver um filme. Os pais foram informados que depois da sessão todas seriam levadas a casa no autocarro escolar. As felizes contempladas ficaram loucas de alegria! Sentimo-nos importantes e crescidas, adivinhamos que seria um filme para senhoritas.

Chegou o dia tão esperado e, lá estávamos nós, no salão de teatro, sentadas mas muito inquietas. De costas para nós uma das irmãs impunha a sua presença, enquanto no final da fila fechando o cerco, encontrava-se a Irmã Dolores.

Faz-se penumbra e o filme começa a rolar. No silêncio da sala apenas ouvíamos o ruído do projector desenrolando a fita. Era uma simples história de amor que se passava no algures tempo bíblico, não tinha som, o que nos obrigava a imaginar os diálogos.

O filme retratava uma cerimónia de casamento e uma alegre festa onde os noivos davam um cândido beijo – para nós esse foi o ponto alto do filme – beijo esse que ninguém viu, pois no momento certo todas olhamos para trás para examinar a reacção da freira! E juramos que a Irmã Dolores ficou mais vermelha do que o costume e com o olhar preso no chão…o que confirmou a nossa suspeita de que ela tinha tido uma história de amor secreta! O nascimento de uma criança marcava o fim desta história.

Nos dias seguintes as conversas andavam à volta do filme e da reacção da irmã Dolores…Também o nascimento do bebé nos intrigava: se não havia hospital, se o parto se deu numa humilde casota, se não havia médico, então…como nasceu o bebé?

Todas as ideias que nos ocorriam pareciam improváveis por isso, chegamos à conclusão que, certamente, os bebés nasciam…pelo umbigo… e deixamos de falar no assunto.

Se a ideia era transmitir alguma informação às rapariguinhas mais crescidas, o resultado não foi muito satisfatório n em esclarecedor…

Voltando à história…

O meu pai não ficou muito entusiasmado ao saber da nova gravidez da minha mãe, não estava nos seus planos ter uma grande família pois isso iria dificultar um pouco mais, a possibilidade de construir uma fortuna. Ela ficou muito ressentida, creio que nunca lhe perdoou por isso.

Quando o bebé nasceu sentiu-se vingada: era a cópia perfeita de meu pai!

Era uma criança grande ao nascer, tão comprida que até parecia magra, tinha a pele muito enrugada, pouco cabelo e uns olhos enormes e castanhos.

A minha mãe, (creio que já nessa altura ela lia os livros condensado das Selecções do Ryder´s Digest), dizia que ele havia de ser muito inteligente e bom, pois o presidente dos Estados Unidos da América, Abraham Lincoln, também nascera assim, enrugado…

A minha mãe cumpria fielmente a sua promessa: havia de receber com alegria todos os filhos que Deus lhe desse…Nos anos que se seguiram, pontualmente, com dois anos de intervalo, nos meses de Maio e Junho, eu tinha mais um irmão…

O meu pai já não se incomodava…


Houve quem me perguntasse o que eram as redes de que falava num dos post mais antigos:( Aquele punhado de terra isolado tinha todos os org… ) , por isso, aqui está uma imagem da referida rede, típica da Madeira, em tempos idos…

Mais imagens antigas da Madeira aqui:

http://www.guia-madeira.net/gallery/thumbnails.php?album=lastup&cat=-6

Pessoa
“Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei.
E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios.
Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior.”

Bernardo Soares,Livro do Desassossego

O sorriso à Mona Lisa

A minha entrada na escola não foi um sucesso.
A escola era um grande edifício, inaugurado a pouco tempo pelo General que detinha o poder; tinha o nome de um caudilho índio:«Guaicamacuto», que enfrentara até à morte os invasores espanhóis. Era uma escola pública com todas as condições para os alunos que a frequentavam desde o 1º até ao 6º ano, o que correspondia à educação primária.
Intimidou-me um pouco, habituada como estava a um meio pequeno onde todas as pessoas se conheciam, e onde a escola da aldeia tinha apenas uma sala de aula na qual se misturavam os alunos de quatro classes, e cujo ensino era ministrado por uma única professora.
Vinda há pouco tempo duma terra distante falava muito pouco da nova língua, assim, fui alvo fácil da troça dos meus colegas, que se divertiam gozando do meu acento e da minha dificuldade em exprimir-me nesse idioma, não me davam sossego, eram cruéis como sabem sê-lo as crianças.
Em certa ocasião uma das cadeiras da sala apareceu partida e quando a professora perguntou quem tinha causado tal estrago, alguns apontaram para mim.
Fiquei muito corada sem conseguir pronunciar uma palavra…
Desse modo aceitei uma culpa que não era minha e meu pai foi chamado à escola para pagar o prejuízo! Nos dias seguintes recusei-me voltar à escola.
Havia ainda outra razão para eu não querer ir para esta escola. Mary era filha de emigrantes espanhóis, que moravam ainda no hotel, foi minha primeira amiga naquele país; ela tinha um irmão a quem chamavam Pituco, embora o nome dele fosse Pedro.
Ligeiramente mais velho do que eu, era baixinho e atarracado, eu achava-o horroroso e antipático.
Chocamos desde o primeiro dia, ele não perdia a oportunidade de me provocar e eu, de o desafiar. Tinha pena que a minha amiga tivesse um irmão assim tão mau! Estávamos ambos na mesma escola por isso, fazíamos o mesmo percurso a pé.
Nessa época eu ainda tinha umas longas tranças que me chegavam até à cintura e, sempre que tinha oportunidade, o brutamontes, divertia-se dando-me fortes puxões de cabelo enquanto ria a bandeiras despregadas! Mais do que uma vez me arrastou puxando por elas, rua abaixo, qual homem das cavernas!
Quando finalmente conseguia soltar-me corria loucamente até casa, onde chegava ofegante e achincalhada, congeminando mil maneiras terríveis de vingança, tão terríveis que nunca as cheguei a concretizar… Nunca disse nada a meus pais pois ele ameaçava fazer-me coisas ainda piores se eu falasse!
Decidida a acabar com aquele sofrimento peguei na tesoura da minha mãe e cortei a trança…Ao mesmo tempo desenhei uma franja de diferentes tamanhos, que a minha mãe, em pânico, tentou remediar sem grande sucesso, diga -se de passagem…!
Poucos dias depois deste meu acto de coragem, foi realizado o baptismo do meu irmão, e é assim que apareço na foto de família, ao lado da minha mãe, meu pai e os padrinhos, de braços cruzados ao peito, com um lindo vestido bordado pela minha tia da aldeia, feito especialmente para ser usado esse dia, com o cabelo muito curto, uma franja minúscula e um misterioso sorriso de Mona Lisa no rosto…

As arepas da Olegária

Nas traseiras do hotel vivia a senhora Olegária. Era uma mulher muito humilde que parecia mais velha do que era em realidade. De tez escura, era seca, com grandes sulcos no rosto e quase sem dentes. Tinha um filho, Victor, já entrado em anos mas ainda solteiro, muito parecido com a mãe e tal como ela, era magro e seco.
Trabalhava como cantoneiro durante a semana e a sua diversão era jogar bolas criollas (uma espécie de jogo de petanca) num descampado à frente do bar, e apanhar uma grande borracheira durante o fim-de-semana.
Sob um telheiro coberto com velhas folhas de zinco, a senhora improvisara uma lareira onde fazia as arepas que vendia para sobreviver.
As arepas eram o pão daquela terra, aquilo que os naturais não podiam dispensar e a que nós nos habituamos rapidamente.
Eram uma espécie de bolinhos redondos e achatados feitos com farinha de milho que a senhora Olegária fazia da maneira mais tradicional, era ela que demolhava o grão de milho branco, cozia, e num moinho de manivela transformava-o numa massa suave com a qual confeccionava as arepas.
Eu ia todos os dias comprar algumas para o pequeno-almoço e admirava-me com a habilidade com que ela moldava a massa e colocava na chapa quente até ficarem inchadas e tostadas, prontas par serem recheadas, ainda quentinhas, com queijo branco, guisado de carne ou feijão preto.
Mas o que mais me impressionava era vê-la com um grande charuto com a chama virada para dentro da boca, e que ela se entretinha a virar continuamente, ora para dentro, ou para fora da boca, enquanto fazia as arepas.

Estátua interior

“-(…) Trago em mim, esculpida desde a infância, uma espécie de estátua interior que dá continuidade à minha vida e que é a parte mais íntima, o núcleo mais duro do meu caracter. Essa estátua toda a vida modelei. Nunca parei de lhe dar retoques. Aperfeiçoei-a. Poli-a. (…) Para todos os desempenhos que me rodeiam e me tocam directamente, tenho também actores prontos a dar a réplica em comédias e tragédias escritas em mim de longa data. Aí, nem um gesto, nem uma palávra, que não sejam impostos pela estátua interior.”

Francis Jacob, A estátua interior

Confissão

Poucos dias antes de fazer a primeira confissão, juntamente com duas primas mais ou menos da mesma idade, cometi um pecado terrível: roubei!
No quintal de uma vizinha havia um pereiro carregado de peros ainda muito pequenos e verdes, aproveitando que ninguém estava por perto, atrevemo-nos -tirar alguns que, depois de os trincar, deitamos fora, tal era o azedume dos pequenos frutos.
Ao chegar o dia da confissão, ao peso de esse crime e a necessidade de o confessar, juntava-se o medo e a vergonha. Tínhamos aprendido que roubar era um grande pecado e que, sempre, em todos os casos, tinha de ser restituído o fruto de tal roubo.
Como podia ter perdão!? É que, confessar eu podia, mas… como devolver a fruta?
Foram dias de angústia e reuniões entre o grupo de “criminosos”, mas sabíamos que tínhamos que enfrentar as consequências desse pecado…
Finalmente chegou o dia mais temido e, cheios de coragem, enfrentamos o padre no confessionário. Já não me lembro o que ele disse, imagino hoje que terá achado graça mas, nesse mesmo dia, fomos pedir perdão à dona dos peros depois de rezar algumas orações como penitência.
Quando chegou o dia da Primeira Comunhão entrei orgulhosa na igreja muito vaidosa no meu vestido de organdi até aos pés, com folhos na saia, as mangas tufadas e um grande laçarote de seda no cabelo.
Os meus cabelos longos tinham-se transformado num emaranhado de caracóis graças à paciência da minha mãe que, no dia anterior, embrulhara cada madeixa de cabelo em papel de seda, e graças também à mim, que suportei estoicamente cada esticão de cabelo em nome da vaidade! Mas o resultado foi excelente e ali estava eu, feliz e orgulhosa, comparando o meu lindo vestido branco com o das outras meninas.
Engoli muito devagar a hóstia para não magoar o corpo de Jesus. Era o que faltava! Depois de tudo o que Ele tinha sofrido por nós…

Tinha ainda seis anos quando fiz a Primeira Comunhão. O padre da aldeia, o mesmo que tinha casado os meus pais e celebrado o meu baptismo, não quis deixar-me partir sem antes me transformar numa verdadeira cristã. Sabia lá se nessa terra desconhecida para onde eu ia, alguém me ia ensinar o catecismo …
Foi também ele que fez a minha mãe jurar que havia de aceitar todos os filhos que Deus lhe quisesse dar.
A mulher que durante gerações ensinou o catecismo às crianças da aldeia era pequenina tão curvada da espinha que parecia que o queixo ia bater no chão em qualquer momento, cobria a cabeça com um lenço e vestia roupas muito simples e velhas e os sapatos cambados deixavam à mostra os dedos retorcidos pela artrite e encavalitados uns nos outros.
Era de uma família abastada mas tinha feito voto de pobreza, também era Filha de Maria e mostrava com orgulho a aliança que a tornava noiva de Cristo. Jurava ser casta e pura, como o seu nome, e seu único desejo era morrer para ir para o Céu juntar-se ao seu amado.
Vivia com mãe, viúva desde muito nova, e juntas levavam uma vida muito modesta. O dinheiro que possuíam era gasto em dádivas para a igreja , sobretudo para comprar muitas missas para arranjar um bom lugar no Céu. È verdade que também faziam caridade e ajudavam algumas pessoas, nem sempre as que mais precisavam…
Mas ela era exigente e dava sermões a todos aqueles que não cumpriam as leis do Senhor.
Todavia, esta figura quase grotesca em nada atemorizava as crianças, a verdade é que quase todos gostavam de ir para a catequese porque no fim da aula ela distribuía uns suspeitos bolinhos de coco, que não eram mais do que flocos de coco amassados com açúcar e água que ela punha a secar sobre as telhas da cozinha e, por vezes, umas estampas de santos e que eram o nosso orgulho, ocasião que ela aproveitava para nos contar a vida e as virtudes dos mesmos de modo que nos servissem de exemplo.

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